terça-feira, 11 de dezembro de 2012

327 - Manderlay (Manderlay) – Dinamarca (2005)



Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
''Manderlay'' é o segundo capítulo, seguido de ''Dogville'', de uma trilogia assinada por Lars von Trier focando a vida nos Estados Unidos. Dessa vez, a história fala da escravidão americana no sul do país, nos anos de 1930.

Vi esse filme após ter visto O nascimento de uma nação e a seqüência não poderia ter sido melhor.
Não só pela coincidência temporal e histórica, mas pela perspectiva de abordagem. Se no clássico de Griffith temos uma premissa racista, que enxerga a abolição da escravatura como um problema social, devido o comportamento e organização dos negros; no filme de Lars von Trier a perspectiva já é diferente. O diretor dinamarquês traz uma representação histórica, que de fato reconhece a dificuldade dos negros de se adaptarem à nova vida – a internalização de séculos de opressão e exlcusão pode gerar acomodação e violência entre os próprios negros.
No entanto, há um pequeno detalhe na interpretação dessa situação. Griffith diz: tá vendo, os negros são preguiçosos, violentos, não sabem produzir, não sabem se organizar, não trabalham direito – e portanto merecem pertencer a uma sub-classe social, submissa ao branco. Já, em Manderley o que se pode deduzir é: sim, os negros recém-libertos possuíam todas essas limitações e deficiências, mas isso não se dava por conta de sua origem, a cor de sua pele e, muito menos, por serem inferiores. Isso se dava porque passaram séculos sendo escravizados e privados de desenvolvimento científico, cultural, social, etc. E isso é o que justamente invalida qualquer discurso racista ou que defenda o escravismo.
A moral da história é: não dá pra passar séculos escravizando um povo e do dia pra noite libertá-los e deixar que eles se virem sozinhos.
Pois foi isso que os Estados Unidos fizeram e, claro, o Brasil também.
Pelo que eu saiba nenhum senhor de engenho foi preso. Pelo contrário, hoje os seus tataranetos são donos de latifúndios e belíssimas fazendas e não raro se elegem prefeitos em seus pequenos municípios e são bastante respeitados. Já os tataranetos dos escravos, não raro, são peões dessas mesmas fazendas, trabalhando muito e ganhando pouco, muitas vezes em condições análogas ao de escravos.
Vale lembrar que os negros libertos não foram devidamente indenizados, não tiveram acesso a moradia, não foram matriculados em escolas e universidades e nem foram capacitados para exercer profissões bem remuneradas.
Certamente isso justifica o fato de que 2/3 das favelas sejam ocupadas por negros; 72,6%de negros e pardos ocupam as camadas mais pobres da sociedade; antes da implementação das cotas, menos de 6% dos universitários (em federais) eram negros, e quanto maior o status do curso (Medicina, Direito, Engenharia), era ainda menor o número de negros cursando; e o desemprego e baixossalários afetarem mais os negros e pardos.
Mas, segundo Ali Kamel e Griffith, não somos racistas. São os negros que são burros, preguiçosos e incompetentes, por isso não conseguem progredir na vida, mesmo diante de uma sociedade tão justa e que oferece as mesmas oportunidades para todos, sem falar na herança escravista que foi rapidamente superada no mesmo dia em que foi assinada a abolição da escravatura. Após a canetada da Lei Áurea, deixamos de ser racistas e não somos até hoje. Ah, e se no Faustão, das 25 bailarinas apenas uma é negra, isso é mera coincidência. Talvez, culpa das próprias negras que não sabem mexer o corpo e sorrir ao mesmo tempo. Sem falar nas atrizes negras, que são péssimas, tão ruins que não merecem receber personagens nas novelas.
Já eu e Lars Von Trier temos uma outra perspectiva.
E sobre o filme... é muito bom. Já não tem a mesma áurea de originalidade que envolveu Dogville, mas possui o mesmo preciosismo dessa obra. 
E que final!!!!


Minha nota: 8,7
IMDB:  7,3
ePipoca: 9,6

Sugestão: Faça a coisa certa

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3 comentários:

  1. Olá AZ, Boa Tarde!!
    OXALÁ TE POUPE!!!! Como isso ficou extenso e maçante. Mas o filme é bom mesmo.
    Esse filme ainda vai me capturar muitos momentos de matutação.
    Muitas vezes comprei livros que fui ler tempos depois, baixei filmes que ficam a espera do momento certo para serem vistos, assim foi com Manderlay, mesmo sabendo, de cara, que o filme era bom. O diretor é um cara que incomoda, assim como Nietzsche, é um soco no estomago, para muitos é indigesto, às vezes até concordo com isso, entretanto sou muito fã. Ele é prismático e sabe que é. No filme ele dá mostras disso quando o velho Wilhelm fala a Grace que ela havia lido o “livro da senhora” com a lente errada. Então, me pergunto, com quantas lentes é possível ler Manderlay? Se num viés o sistema escravagista é a pedra de toque para retratar a condição do negro, noutro pode indicar que ele é umas das pontas de opressão e que estamos imersos numa escravidão muito mais aterradora. Ainda em outro Manderlay é um micro-cosmo de pano de fundo para demonstrar que as relações humanas estão muito mais embaralhadas do que elas aparentemente apresentam. Porém, quanto a possibilidade desse desenredo, penso que ele foi mais pessimista ou lúcido? que Quentin Tarantino em Django, ou quem sabe Tarantino tenha sido mais romântico.
    Dizer de Lars Von Trier é dizer que genialidade e loucura andam de mãos dadas, às vezes fica difícil saber qual a mão que mais dirige, ele desestabiliza moral e conceitos pré-fabricados, penso até que, em alguns momentos, ele assusta, e lá no fundo fica a dúvida será que não somos nós que estamos afinal sendo um número e correspondendo a um perfil que nos foi atribuído sem que tenhamos conhecimento? Qual é o “livro da senhora” que seguimos sem saber? Quem são as Graces que se acredita em poder mudar o outro? Enfim, de que se alimenta a liberdade?
    Pronto, parei .
    Um abraço, e de novo parabéns pelo blog tá muito legal

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    1. Oi Soli,

      Tenho que admitir que toda vez que posto um filme torço por um comentário seu. Suas análises (que não são maçantes e têm a extensão precisa) são um espetáculo à parte. Tenho certeza que qualquer leitor, inclusive eu, se torna um espectador melhor após ler seus comentários. E não apenas um espectador, pois você vai além da parte meramente técnica (tal como os grandes cineastas).

      "Qual é o 'livro da senhora' que seguimos sem saber?". Vou dormir com essa.

      Eu que te parabenizo e agradeço, Soli. O blog fica mais rico sempre que você comenta.
      grande abraço

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  2. Olá Az
    To quase boba aqui, obrigado pelo carinho e por permitir partilhar do espaço. Escrever é um exercício muito legal, parabéns pela atenção que dedica àqueles que visitam o blog, parabéns pela leveza, com qual tão bem apresenta os filmes que indica.
    Obrigado e um até logo, bora bora que hoje é dia de protestar a favor do protesto. Um abraço

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